Fecho os olhos e lembro o nosso ultimo beijo...
O beijo doeu em minha boca o reverso de todos os beijos que te dei. Nele, nada da entrega de antes, da fusão de antes, um beijo carimbo de protocolo como se em meus lábios estampassem data e local. Também minhas mãos não te tocaram pássaros, nem te assolaram tempestade que arranca árvores e expõe raízes. Minhas mãos só tatearam no escuro um apoio para descer do carro. E eu quis chorar, quis sentir, quis me dar, mas nos olhos, só um gosto de fim. Um gosto eterno de adeus...
Me vejo sempre no meio do caminho, tendo andado até o limite dos nossos mundos e te espero na fronteira entre mim e nós. De lá te grito, te chamo, te imploro, de lá te aceno com as mãos que te amaram, te imploro que te ergas para além da tua toca e venhas pra mim, para o que de ti me fiz, para o que sou de nós para o que serás de mim. Já chorei tanto e tanto de súplica me esvaí, já perdi a voz de te explicar os porquês e comos e quandos e de que formas. Tudo de mim já sabes, já viste, já ouviste, tudo para ti já cantei. Minhas palavras estão todos vertidas aos teus pés, murais imensos que se erguem me estampam a cara, o ventre, as tripas e entranhas. Me esgoto em mim e desfaleço. Nada mais há no que sou que não sejas tu.
Para ti, cada uma destas palavras desencravadas da minha pele para enfeitar teus dias, cada um destes versos paridos do meu ventre para viver tua alegria, cada um destes poemas cantados em minha língua em teu louvor. Também para ti, os gritos de dor de te ver alijado de mim por tua própria escolha, o lamento que repete o desespero do abandono, o desamparo das linhas forjadas na tua ausência. Hoje este canto se repete e depois se cala no vazio dos meus lábios aos teus ouvidos, amortalhado nestas folhas, para renascer na boca de outros, levando muito de nós consigo. Aqui encontrarás o que nunca conheceste, de bom e de ruim. Para sempre meu canto foi teu. Desde sempre será assim. Ao contrário de ti, não tenho escolha.
Volta na boca o gosto de te ter agarrado aos meus cabelos me querendo ainda mais tua quando já confundidos no mesmo corpo, nos mesmos gestos e ritmo, estamos além de tudo posto, na dimensão acima do calabouço do resto de tudo: somos um, muitos, te tenho meu e te sou, me tens tua e me és, somos o revés do que um dia fomos, mas pouco mais que o esboço do que seremos em instantes. Tuas mãos me prendem e dominam, mas me acalentam e me amam, meus cabelos te convidam, te suplicam e te envolvem como teia indestrutível para te aprisionar pelos instantes eternos que te tenho meu. Então volta na boca o gosto de adeus.
Se, ao te conhecer, dei pra sonhar,
fiz tantos desvarios Rompi com o mundo,
queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir ??