Nunca houve um passado, beibe, nem que quando eu jurava que o que eu estava vivendo era real. Nada. Alicercei essa história maluca no nada, e no nada ela se apoiou enquanto foi possível.
Hoje eu mal me lembro das suas belas mãos, do seu nariz (ah, o seu nariz), da sua gargalhada, quando você fechava (fecha ainda?) os olhos, jogava a cabeça para trás e me fazia estremecer.
Eu queria fazer você rir, eu queria fazer você sonhar, eu queria. Eu quero.
Mas daí, abençoada por essa nominável necessidade de sobreviver, calço meus tênis verdes, compro ração para os peixes, pago a conta da tevê a cabo e quase me esqueço do que quero, do que quis. E desse passado todo, que nunca existiu e que ocupa tanto espaço no meu carro.
Jantei bolachinhas barulhentas barradas de requeijão e tédio, lendo suas palavras, as reais e as imaginárias.
Não doeu, mas, sei lá, tem tanta coisa que não dói e mesmo assim mata, né não?
quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Piso em falso no chão que ora firma, ora deliqüesce, tento existir em verbo futuro, inverto o peso do corpo, suspendo a alma no muro, bato as asas que não tenho para fazer da rastejância de musgo um revoar leve de plumas sobre teus ombros. Pedras, lascas, seixos e prendo no peito uma ânsia de colo quase em mar de olhos. É preciso quase te perder, eu sei, é preciso que quase me percas: o terror amargo do sonho inventado, do caminho refeito de pés descalços precisam voltar e pousar em nós e nós precisamos achar a boca e as mãos um do outro. Estendo a língua em silêncio e espero que a hóstia venha, ferrão ou pétala
ciclo
As coisas não se despedem de mim, ou eu as impediria de irem embora. Se as coisas se vão, é porque se evadem mansas e silentes, sem que eu as perceba. Gastam-se, aniquilam-se e desaparecem, escapam pelas frestas dos dedos e viram essa estranha poeira que vaga pela vida, transformando as cores, misturando-se à neblina dos dias, reconfigurando as margens. É quando o que existe dentro vira mundo novamente
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