Dá-me de comer da tua boca, minha boca, tua língua, dentes, lábios, saliva. Dá-me de comer dos teus olhos, meus olhos, água, cílio, pálpebra, viva. Dá-me de comer de ti, disso em ti que sou eu e és em mim, tudo fundo agora sempre antes, gigante, sem fim. Dá-me de comer assim, como quem morre e ressuscita, além.
Colhe em mim um último minuto, uma última pétala aérea e perdida do que enfim já se recolheu à terra, já silenciou e morreu. Tenta-me de novo àquela hora vaga e erma e repara se em meu corpo ainda vagam relâmpagos, se ainda pode-se sentir algum traço de tempestade. E toma-me assim, brutal e insano, inevitável e metálico, patas e arreios, para que eu me esvaneça, etérea e limpa, avessa, acima, além.
A amplidão do peito se espalha rubra pelo chão e inunda tudo cada vez que lembro do meu mamilo em tua boca. Eu sei, mesmo sem saber, quais as cores do teu corpo que passaram pelas minhas mãos e quais os nomes que me deste entre a minha carne e a tua. Conheço teu gosto, teu sumo, tua saliva em meus lábios e uma febre incompleta e faminta. Te procuro e te espero, um tanto mais e sempre, num desconsolo que é seu próprio revés e sua absolvição. Tenho no fundo de mim tua âncora e tuas ondas.
E então é isso, essa contenção, esse desbordar incluso, esse vir a ser que espera com braços estendidos, que se sabe maior, que se sabe pleno, mas que só pode andar até a metade do caminho. É isso que trazemos junto ao peito: o perfume que ascendeu da terra mas ainda não tem flor, a nuvem que ainda não choveu, os olhos rasos de sonho prontos para sonhar à procura de primavera, de terra para molhar, de vida para viver.
Por Patrícia Antoniete.
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