Todos os dias quando saio do trabalho dou uma leve olhada, de canto de olho, pra casa onde meu pai morava... É um olhar medroso, doído, saudoso... Ela está vazia. Tudo ali lembra ele... até o cheiro. E cada dia parece que dói um pouco mais... Nunca escrevi pra ele... Nunca disse aqui nada sobre isso... Isso pq nunca encontrei nenhuma palavra que fosse capaz de dizer o que é, o que acontece aqui dentro de mim... dizer o quanto eu o amava e o quanto me dói a sua ausencia... ele foi um bom pai... eu o amava...
"A casa tem espaços desertos, tem noite escondida e um vento que surge de lugar nenhum. A casa dói pelas paredes e se encolhe nos cantos, apodrece as flores nos vasos e tranca as portas por dentro. A casa engole o ar, respira para dentro e vai se apequenando como um novelo de suspiros cada vez mais curtos. A casa quase se asfixia, em sua insuficiência azul entrecortada e se esparrama pelas escadas em busca de terra, em busca de chão frio junto aos ladrilhos. A casa não dorme, estala madeiras e espreita ressentida pelas frestas quem não passa pela calçada. A casa desmorona secretamente, esconde os brinquedos quebrados no sótão e cospe baratas dos ralos. Ali não mora mais ninguém."
P.A
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